MUJER

Amazonas sem couro cabeludo

O Brasil é o líder mundial em acidentes de trabalho

Amazonas sem couro cabeludo
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O Brasil é o líder mundial em acidentes de trabalho, em quase todos os setores. A seguinte nota aborda um caso raro, porém que reafirma essa realidade: a dos habitantes das regiões amazônicas do país (na sua grande maioria mulheres), que perdem seu couro cabeludo ao pretenderem atravessar o Amazonas em pequenas barcas motorizadas que não contam com a menor proteção.

A indiferença estatal pelas condições em que trabalham essas pessoas e pela sua situação posterior aos acidentes agrava o drama de um caso que, por si só, já é muito grave.

Centenas de mulheres e meninas, e alguns homens, perderam acidentalmente o seu couro cabeludo no estado do Amapá, um dos mais pobres do Brasil, tentando atravessar o Amazonas, a única via de comunicação da região. Se não fosse a ação de uma associação que as reúne, sua estranha historia de vida teria sido de solidão e marginalização.

Era uma tarde como tantas outras, em Macapá – AP, onde o clima é sempre quente, úmido e abafado. Rosinete voltava de mais um dia de trabalho na escola de sua pequena cidade: “Tinha 20 anos e era professora de alfabetização. Estava cansada, o barco estava cheio, fechei os olhos e fiquei dormindo, e de repente aconteceu”.
 
Rosinete Rodrigues se lembra muito bem do dia em que a sua vida mudou. Ela conta em voz baixa, sem chorar, como se fosse normal uma garota jovem e inteligente sofrer um acidente tão grave como o dela: a perda do couro cabeludo. “Meu cabelo ficou preso no motor e não se podia fazer nada. O meu cabelo foi pego pela borda do barco. Foi tão rápido, que na hora nem senti dor”. Mas, depois veio o sofrimento. “Não pude ficar na minha cidade com a minha família. Eu já não era a pessoa bonita e sorridente que estavam acostumados a ver. Por isso, fui embora”.
 
A história de Rosinete parece tirada de uma novela brasileira, dessas que mantêm milhões de espectadores grudados na telinha a cada noite. Felizmente, a dela também tem um final feliz. “Estive hospitalizada muito tempo, e uma enfermeira chamada Elma tinha tanto carinho por mim, que praticamente me adotou. Passei por momentos de depressão e de solidão, mas ela sempre me animou e me ajudou a não desistir”.
 
Depois de recuperar as forças, Rosinete também deixou a casa da Elma e começou a trabalhar como empregada doméstica. “Estava grávida do primeiro homem que apareceu”, admite. Mas um dia, casualmente, viu na televisão duas mulheres muito ativas que agora são suas companheiras de luta, reivindicando seus direitos ao então presidente Lula. Nesse momento, ela percebeu que não estava sozinha.
 
“O momento mais importante para todas as vitimas – explica – é quando percebem que o que lhes aconteceu não é um caso excepcional, mas que, infelizmente claro, há outras mulheres e meninas que estão passando pelo mesmo trauma”.
De acordo com estimativas publicadas pela Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vitimas de Escalpelamento da Amazônia (AMRVEA), presidida hoje em dia pela própria Rosinete, há mais de 400 casos registrados no estado do Amapá. Em 2013, o número de acidentes foi sete, sendo que seis deles foram no estado vizinho do Pará e, até abril de 2014, houve mais um caso.
 
A AMRVEA foi fundada em 2007, e há alguns anos tem sua sede em uma pequena casa pintada de rosa, que fica perto da marinha. “Estamos fazendo as reformas para hospedar as meninas que precisam permanecer na cidade para receberem os tratamentos – diz Rosinete – e eu gostaria de criar um centro de beleza para as nossas convidadas”.
 
Depois de se sentir rejeitada durante anos, é agora uma mulher feliz que se dedica em ajudar as demais: “Estou casada com um homem que é também membro da AMRVEA, porque o motor feriu parte de seu rosto. Mas nos amamos e temos dois filhos lindos”.

Macapá, onde Rosinete vive e onde foi fundada a associação, é a maior cidade do norte do Brasil, localizada perto da fronteira com a Guiana Francesa, e é a única que não está conectada com o resto do país por estradas. Só se pode chegar a Macapá por barco. Não há o que se visitar em Macapá, não possui um centro histórico de peso, e nem é famosa entre os turistas, como Manaus. Além disso, é muito quente, com uma temperatura sempre acima dos 19 graus, podendo chegar tranquilamente aos 40 graus. Para ir até lá, é preciso paciência e saber que a duração da viagem não se mede pelos quilômetros nem pelo acelerador, mas pelas correntes do rio Amazonas e seus afluentes.

 
As pessoas que vivem ao longo dos afluentes do Amazonas sofrem de pobreza extrema. Sobrevivem principalmente graças à venda de palmitos e de camarões, entre outras coisas que conseguem colher ou pescar, aos turistas e viajantes que passam pelas suas aldeias nos grandes barcos que vão de Belém do Pará a Macapá.
  
Para ir à escola, ao trabalho, ou visitar familiares, não há outro meio que não sejam as pequenas embarcações. A maioria são a remo, mas as famílias que possuem melhores recursos decidem comprar um motor para reduzir o tempo de locomoção, que podem ser infinitos.
“Os primeiros motores chegaram ao Amazonas nos anos sessenta, e aí começaram os acidentes”, explica Maria do Socorro Damasceno, uma das fundadoras da AMRVEA. “O problema é que não possuem tampa, porque são máquinas que se utilizam para cortar madeira”.
 
A deputada Janete Capiberibe é uma política ativa do estado do Amapá. Em 2007, ela apresentou um projeto de lei, aprovado dois anos depois, exigindo a regularização de todas as embarcações, oferecendo aos proprietários um serviço gratuito para aplicarem as medidas de segurança. Mas, isso não foi suficiente para mudar as coisas, já que apenas 5 mil dos mais de 20 mil barcos que circulam estão registrados pela Capitania dos Portos.
 
Os acidentes com os motores dos pequenos barcos também envolvem homens, ainda que seja de forma diferente. Alguns machucam o rosto, como aconteceu com o esposo de Rosinete, e há quem perde uma perna ou um braço. Só que é muito difícil que eles peçam ajuda às associações, e por isso não há cifras oficiais.
 
Estima-se que, aproximadamente, 10 por cento dos acidentes afetam os homens, uma cifra que se considera bastante ajustada à realidade, pois são eles quem levam o timão, e são as mulheres quem eliminam a água em excesso que entra no barco, para esfriar o eixo que vai do motor até as hélices. Trata-se de uma atividade considerada mais leve, só que muitas vezes acaba em tragédia por culpa de um rotor capaz de fazer de 1.500 a 3 mil voltas por minuto.
Em 2004, Glaisie, na época com apenas 11 anos, estava em um desses barcos com o seus avós, com quem iam passar o Natal. “Ela estava atrás, jogando água no motor e se distraiu”. Geneci e Robsan, os pais de Glaisie, ainda muito emocionados, choram ao dizer que o avô ainda não conseguiu se recuperar do trauma. A adolescente, por sua vez, sorri e brinca com as outras meninas da AMRVEA, que são como irmãs mais velhas para ela.
 
O pior nessas histórias todas é o tratamento que essas mulheres receberam no hospital, a enorme demora em serem atendidas e poderem receber os curativos de emergência e o pouco respeito e compreensão que tiveram com elas.
 
“Minha filha teve o acidente no domingo às 11 da manhã, e só conseguimos chegar ao hospital às 2 da tarde. A médica que nos atendeu disse que podíamos tranquilamente começar a preparar o enterro, e não mostrou nenhuma compaixão com a nossa dor”.
 
Inicialmente foi feito um implante em Glaisie, com parte do seu músculo, porque o motor tinha arrancado o centro do couro cabeludo. Na segunda-feira ela ainda estava com infecção, e por culpa dos médicos que a atenderam, ela quase perdeu uma orelha. Agora, ela leva um bonezinho preto com um pequeno laço rosa, e não se nota.
 
Ela só usa peruca para ir à escola, em uma tentativa de parar com as gozações de seus companheiros. A mãe de Glaisie cortou o próprio cabelo para que a sua filha possa ter outra peruca, e assim escolher a cada dia a que mais gostar. 
 
Uma fada guerreira
 
Socorro perdeu o seu couro cabeludo quando tinha 7 anos. “Sou filha de pescadores”, conta sentada à mesa da pequena cozinha da amiga que ela sempre visita, chamada Ivonne. Ela está com a sua peruca loira, que chega aos seus ombros, com uma franjinha que combina com o seu rosto arredondado.
 
O lado esquerdo do seu rosto está coberto por cicatrizes, fazendo com que o seu olho esquerdo não abra completamente. Seu cabelo também esconde as orelhas, cortadas em boa parte pelo motor. Sua voz é rouca e suave, e quando fala capta a atenção das pessoas.
 
Ela parece uma fadinha, pequena e redondinha, e quando olhamos bem para ela, abandonamos rapidamente as definições que normalmente utilizamos para estabelecer os cânones de beleza. “Depois do acidente, estive no hospital por quase três anos, porque minhas feridas não cicatrizavam. Então, uma enfermeira aconselhou a minha mãe a me levar para a sua casa, em uma aldeia, e lá ela ensinou um tratamento com ervas. Ela mergulhava a minha cabeça no rio e depois me colocava os medicamentos. Em seis meses minha cabeça ficou curada”.
 
Para estar próxima de Socorro, sua família renunciou a tudo, abandonou a casa no rio e se mudou. “Para nós é impossível aguentar o enorme calor e  umidade. Mais cedo ou mais tarde, iremos para a cidade”. 
 
E aqui começa outro problema, porque as mulheres que chegam à metrópole, quase sempre pertencem a famílias humildes e não conseguem ter uma moradia digna. Com isso, terminam morando na periferia, em barracos de madeira, sem contarem com as condições de higiene básicas necessárias para o cuidado e os delicados tratamentos exigidos.
 
Entre suas reivindicações, a AMRVEA deseja obter passagens a preços populares e subvenções ao acesso a moradias e educação. Socorro fala com orgulho das pequenas, mas importantes vitórias da associação: “Duas de nossas meninas se formaram em pedagogia. Eu nunca estudei, mas aprendi muito, viajei a Brasília e por todo o país, conheci importantes políticos e aprendi a fazer valer os nossos direitos”.
 
Em 2012, graças a um programa governamental implementado em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 47 mulheres foram operadas de forma gratuita: “Foram selecionadas quase 70 mulheres, mas no caso de algumas infelizmente a operação não foi um sucesso: o couro cabeludo delas rejeitou o implante. No meu caso, conseguiram curar apenas um lado do meu rosto, mas estou feliz mesmo assim, minhas cicatrizes me fazem uma guerreira”. A AMRVEA também está levando a cabo uma batalha legal para garantir que as vítimas recebam uma compensação pelo trauma sofrido: “Algumas já obtiveram, e todas recebemos a metade de um salário mínimo por mês (R$ 359,74.)[1]”.
 
Entre as meninas indenizadas, devido ao acidente, está Ayani, de 13 anos. “Deram para a gente 35 mil reais e nós usamos esse dinheiro para comprar um barco a motor, em bom estado”, disse a sua mãe, María José, que vende frutas e verduras no porto. Ayani é muito tímida, sorri e escuta com atenção. Usa uma peruca de cor marrom, com uma pequena pinça azul em um lado. Vai a Macapá periodicamente para os controles médicos, mas continua vivendo na na sua pequena cidade com seus pais.
 
“Viajávamos em um pequeno barco junto com outras seis pessoas, eram as 7h30 da manhã e acabávamos de sair do mercado quando Ayani caiu na água. O motorista do barco não quis voltar atrás e nos deixou lá, às margens do rio. Ficamos esperando que outro barco passasse. Só conseguimos chegar ao hospital às duas da tarde, e às três ela entrou na sala de operações”:
 
Durante todo esse tempo, Ayani perdera muito sangue, e por milagre se salvou da morte por hemorragia. Permaneceu hospitalizada durante quatro meses, até que a sua mãe a levou de volta para casa e começou a tratá-la com ervas.
“Em um mês sua ferida cicatrizou”, lembra com orgulho. Os primeiros meses depois do acidente foram difíceis para a Ayani, seus colegas da escola zombavam dela e, além disso, ela não podia nadar, como sempre fazia.
 
Posteriormente, conheceu no hospital a Socorro, e também outras mulheres da associação, e pouco a pouco começou a superar o drama e a vergonha. Em 2009, doaram para ela uma peruca e hoje em dia, além de ir à escola e de ter aprendido a responder aos que não a respeitam, joga futebol no time da sua cidade.
 
“Estamos vivas e precisamos de ajuda”
 
Trindade Maria Gomes é o outro pilar da associação. É uma mulher alegre, que passeia por Macapá cumprimentando a todos e sempre acompanhada de seu filho Simião, de 18 anos, que se converterá em padre dentro de alguns meses.  Todos os dias, Trindade tem um visual diferente: às vezes é ruiva, outras vezes loira.
Isto se deve a que nos últimos anos, ela foi montando uma oficina dedicada à confecção de perucas para as vítimas destes acidentes. Para aprender a confeccioná-las, Trindade foi para São Paulo. “Viajei de um lado a outro durante seis meses, porque ali, graças à Internet, encontrei uma pessoa disposta a me ensinar a utilizar a máquina de costura e o cabelo natural”.
A história de Trindade é uma das mais difíceis de escutar. “Eu tinha 7 anos, e quando os médicos disseram ao meu pai que era necessário me levar para outro hospital, para me curarem melhor, ele disse que não gastaria nem um real para salvar um morto. Meus pais me abandonaram e me criei no Hospital Militar de Belém, até que fiz 15 anos e fui trabalhar como babá na casa de um estrangeiro”.

Trindade também voltou a se sentir viva quando conheceu outras como ela. “A primeira vez que nos mostramos em público, foi numa reunião do Movimento de Mulheres. Como havia muito barulho, pedi um minuto de silêncio e quando prestaram atenção em mim, eu tirei a peruca dizendo: “Existimos, estamos vivas e precisamos de ajuda”.

Ao longo de sua viagem de conhecimento e aceitação, as mulheres da AMRVEA  contaram com a ajuda de muitas pessoas, que das mais diferentes formas, ofereceram a elas apoio e ajuda. A mais útil e prática é, sem dúvida, a do médico Alexandre Lourinho, que há 22 anos decidiu se mudar para Macapá para estudar e tratar da questão do trauma experimentado pela perda do couro cabeludo: “Não há literatura médica sobre o assunto – admite – e as pesquisas não avançam”.
A maioria das pacientes que enfrentam uma cirurgia atravessam duas etapas: primeiro recebem um enxerto de pele, normalmente retirada da coxa, e depois colocam nelas uma expansão que permite ao couro cabeludo recuperar sua elasticidade.
Entre as meninas sob o cuidado de Alexandre está Tatiana, vítima de um acidente em 2004, que agora tem 17 anos. “Os pacientes mais jovens têm mais possibilidades de cura, porque seus tecidos se reconstroem mais rápido”, disse o médico. Tatiana não usa peruca, mas sim um gorro de crochê. 
Durante os dois anos que passou no hospital de Amapá, seus pais iam e vinham com regularidade, até que decidiram se mudar. “Vendemos tudo e começamos de novo. A vida na cidade é muito mais cara e difícil para nós, que viemos do rio, mas as coisas vão bastante bem para nós”, diz Manuel, seu pai, que agora trabalha como vigilante.  
Tatiana sonha em ser médica. “Se nós tivéssemos ficado na aldeia, ela não teria podido estudar, aqui ela terá as oportunidades que eu nunca tive –Admite Manuel às vezes há males que vêm para o bem”.